Travessia da Serra do Caparaó

outubro 10, 2008

Buenas!

Finalmente voltei a jogar uma mochila cargueira as costas. Mesmo com a perspectiva do Aconcágua e tudo o mais, meus treinamentos estavam direcionados basicamente às corridas e caminhadas aceleradas nas montanhas da Serra do Mar paranaense.

No entanto houveram anomalias climáticas nos últimos meses na região leste do Paraná, onde o último final de semana de bom tempo que eu me lembro foi no início do mês de agosto. A partir desta data até minha mudança para Belo Horizonte eu não mais havia subido montanhas para pernoitar, carregando peso por horas. Algumas caminhadas aceleradas foram feitas, como o ataque no Ciririca e a descida do Itupava, mas nada com a especificidade necessária para simular as condições a serem enfrentadas no início do ano na Cordilheira dos Andes.

Surgiu a oportunidade para este final de semana que passou e não desperdicei. O Pico da Bandeira (2.892 m) surgiu como destino óbvio, dada sua relativa proximidade da capital mineira (se comparado a sua distância de Curitiba, minha casa até semanas atrás). Além disso, trata-se da terceira maior montanha do Brasil, bastante freqüentada e conhecida pelo pessoal daqui do sudeste brasileiro e sonho antigo deste montanhista. Apesar do Parque estar a apenas 290 km em linha reta de BH, o trajeto até lá é bastante tortuoso.

A idéia era não só atingir o cume do Pico da Bandeira, mas também realizar a travessia, iniciando a caminhada pela portaria capixaba e finalizando na portaria mineira, que está na parte bem mais freqüentada.

Passei a semana anterior pesquisando os dados na internet, colhendo informações e nos inteirando da previsão do tempo, que não era muito favorável. Mesmo assim resolvi arriscar.

Embarquei com destino a Carangola, leste de Minas Gerais, quase na base da Serra do Caparaó. Tomei o ônibus das 07:15 da manhã do sábado dia 11 de outubro, pela Viação Pássaro Verde na Rodoviária de BH. A passagem custa R$ 66,00. A previsão da duração da viagem era de seis horas. Muitas e freqüentes paradas por pequenas cidades do interior nos atrasaram bastante. Rio Casca, Abre Campo, Realeza… São alguns dos lugarejos que o ônibus parava para embarque e desembarque de passageiros. Houve, inclusive, um contratempo que nos atrasou mais ainda, o sumiço da mala de um dos passageiros. Agradecendo a Deus que não tenha sido eu a perder a preciosa bagagem, aguardamos com paciência o preenchimento de laudos e relatórios da infelicidade ocorrida.

No fim das contas chegamos em Carangola no exato momento em que partia o outro ônibus que nos levaria ao destino programado para este dia: Espera Feliz. Eram quatro da tarde, um atraso de quase três horas.

A viagem até a cidade de nome curioso tomou apenas 45 minutos e custou R$ 3,20. Espera Feliz, já na divisa com o Espírito Santo já tem um aspecto muito mais agradável do que as outras cidades que havíamos passado. Assim que descemos do Terminal Rodoviário já obsversei as três opções de hospedagens disponíveis. Acabei me decidindo pelo nome mesmo: Hotel Montanhês. Está situado bem em frente ao terminal rodoviário. Diária para casal a módicos R$ 40,00 com café da manhã. Banheiro privativo, TV no quarto, chuveiro bom…tinha até uma varandinha para observarmos o movimento na pracinha em frente. Talvez na temporada de montanha seja necessário ligar e reservar um quarto: (32) 3746-2575.

Cansado da longa viagem dei um tempo e parti para dar uma geral na cidade e achar um lugar legal para jantar. Mais uma boa surpresa: Central do Chopp. Uma deliciosa pizza e vários chopps por apenas R$ 28,00. Está localizada na rua principal da cidade.

Voltei para o hotel, já com a informação que precisava. O ônibus com destino a Pedra Menina partiria no domingo as 07:15 da manhã do mesmo terminal rodoviário.

É do vilarejo de Pedra Menina, bem na divisa de estados, que começa a caminhada de 8 km até a portaria capixaba. Até lá seriam aproximadamente 28 km de estrada de chão, com alguns poucos trechos pavimentados. Aliás, a estrada de acesso a Pedra Menina está sendo asfaltada.

Já no domingo levantei as seis da manhã e após um excelente café da manhã no hotel fui tomar o ônibus. Com certeza era a atração da cidade, com nossas roupas e mochilas…

O dia amanheceu com sol e algumas nuvens, o que nos animou mais ainda.

Apesar da curta distância levamos quase duas horas para chegar a Pedra Menina. Neste local meti o pé na estrada, seguindo as placas que indicavam a direção da portaria. Não tem erro, caminho óbvio e sem bifurcações. Fica apenas a dica de quem for fazer o trajeto a pé como nós, de seguir pelo lado mineiro, na margem esquerda do Rio Preto. São 8 km até a portaria. Se você seguir pelo lado capixaba serão 12 km…

A caminhada que pretendía fazer tem uma característica única nas travessias aqui no Brasil. Apresenta um desnível altimétrico brutal. Parti de Pedra Menina por volta dos 800 metros de altitude. O objetivo para este dia estava situado mais de 1.500 metros acima. Ou seja, a caminhada seria bastante dura, ainda que fosse através de estradas. Essa é outra peculiaridade. Foram pouco mais de 15 km percorridos neste dia por estradas de chão com alguns trechos calçados.

Iniciei a caminhada em Pedra Menina as 9:00. Subida e sol forte me consumiu quase duas horas para fazer os 8 km que me separava da portaria capixaba do Parque Nacional do Caparaó.

A estrutura é grande, com cadastro de visitantes, uma super atenção do guarda parque no sentido de nos falar do clima, das trilhas e das atrações. Pagamos a taxa de ingresso e de pernoite (R$ 9,00 por pessoa) e toquei parque acima.

Como se pode observar em algumas fotos, boa parte do trajeto que leva da Portaria Capixaba do Parque até o Abrigo Casa Queimada é pavimentada. Aqueles lajotões de cimento que fariam a alegria daqueles que freqüentam a Fazenda Pico Paraná por exemplo. Só mesmo uma estrada calçada para se poder chegar de automóvel àquela altura toda. A portaria está a aproximadamente 1.300 metros de altitude. Em apenas 7,5 quilômetros vencemos pouco mais de 1.000 metros de desnível.

Antes disso, porém, passamos pelo primeiro abrigo, chamado Macieiras. Lá conta-se até com churrasqueiras… Se não é o programa favorito dos montanhistas, pelo menos ninguém faz fogueira no chão. Tem uma casa para pernoite também, cuja chave pode ser conseguida mediante reserva antecipada e disponibilidade de vagas (na temporada de montanha é mais difícil). Lá também tem banheiro, chuveiro e essas modernidades.

Nosso destino deste dia era mais a frente, então metemos o pé na estrada. A subida continuava, agora por um vale menos íngreme, já com a primeira vista do Pico do Cristal (2.769,70 metros) que se aproximava. com alguns minutos de caminhada rumo a Casa Queimada cheguei a entrada de uma curta trilha que leva à Cachoeira da Farofa.

Bonito lugar, cachoeira de uns 50 metros de altura. Não me arrisquei a descer até sua base, preferindo curtir o visual de seus poços de água cristalina e geladíssima em sua parte superior.

Não me detive muito por ali, toquei para cima. Por volta das três da tarde atingimos enfim o abrigo Casa Queimada, onde lá estavam duas mulheres que haviam subido de carro. Assim como eu, passariam a noite acampadas ali e subiriam no dia seguinte.

Que maravilha, só tirar os equipamentos do porta-malas e caminhar por longos 30 metros até a clareira… No meu caso comecei a desmontar as mochilas e preparar um almoço. A fome dominava os pensamentos.

Assim que comecei a preparar a refeição começou a chover. Chuva fina, chocha, mas que molhava à beça. Aproveitei a estrutura (uma área defronte ao banheiro) para lá cozinhar. A chuva logo parou e pude montar a barraca nova (que será usada no Aconcágua) sem mais entreveros.

Estômagos satisfeitos, me acomodei na barraca e logo voltou a chover. Adormeci rapidamente, pouco depois do sol (sol?) se pôr, antes das seis e meia. Choveu praticamente durante toda a noite. Um chuvisco na verdade, mas que me deixava apreensivo para o dia seguinte, onde caminharía em locais mais altos e expostos. Se amanhecesse chovendo forte já tínha o plano B traçado: chamaría as meninas numa carona de retorno, hehe.

Não foi preciso. O dia amanheceu carrancudo mas sem chuva. As mulheres desistiram do ataque ao Pico da Bandeira e antes das sete da manhã já estavam descendo a estrada no carro delas.

Um café da manhã meio chulé (eu havia esquecido de trazer um capuccino) deu início ao longo dia nas montanhas. Estava por sobre os 2.300 metros de altitude e chegaría nos 2.892 metros do Pico da Bandeira. Antes disso passaría por alguns outros cumes, como o Calçado, o Calçado-Mirim e o Pico 2, todos na faixa dos 2.700 metros.

O tempo estava bem pior que no dia anterior, com a base das nuvens na faixa dos 2.500 metros. Após uns pouco minutos atingi esta altitude e entrrei no mundo da umidade e do vento, que na verdade nem era tão forte. A caminhada se faz exclusivamente por uma trilha em suave pendente nos campos de altitude, inclusive com algumas Caratuvas (chusquea pinifolia), que fez minha mente viajar às altitudes paranaenses. Ainda mais com aquelas nuvens carregadas…

Após atingir o alto da crista principal da Serra do Caparaó, em vez de ter uma bela visão do lado capixava, onde em dias límpidos é possível até avistar o mar, me satisfiz com a expectativa de estar chegando enfim ao Pico Calçado. O tempo abriu um pouquinho e pude vê-lo mais além e mais alto. Agora o terreno era basicamente rochoso e seguía as setas amarelas pintadas (pintadas?) na superfície. Achei esse sistema de sinalização muito impactante, até porque a quantidades de tinta usada era absurda. Havia marcações a cada 4 ou 5 metros pelo menos. Um exagero. Impossível se perder ou errar o caminho em um lugar desse. Talvez fosse mais interessante usar placas metálicas coloridas chumbadas na rocha, assim como no P. E. Marumbi, no Estado do Paraná. Aliás, é apenas nesse aspecto que o Marumbi se mostrar mais lúcido em suas soluções se comparado ao Caparaó.

E a trilha (trilha?) sobe. Enfim o Calçado, agora sim sob um vento mais digno de montanhas. Infelizmente já não havia mais visual e só soube que estávamos chegando ao Pico da Bandeira quando já estava praticamente na base dele, coisa de 5 minutos de seu cume. Ali larguei a mochila, comi algo e toquei rapidamente para cima. Curiosamente lá no alto estava mais quente, com o sol passando pelas nuvens e queimando forte (voltei com as mãos bem queimadas). Cume estranho. Um cruzeiro, duas lajes cimentadas que devem ter sido a base de alguma construção antiga e um “projeto” de antena. Muitas pichações e tudo detonado. Infelizmente nada de visual.

Toca para baixo. A meta agora era chegar na cidadezinha de Alto Caparaó até o final do dia. Eram dez e meia da manhã. Agora percorreria um caminho bem mais batido segundo informações. Na verdade o início da trilha se faz por um rio (rio?). Não sei se na época da estiagem tem água por lá. Mas por mais de uma hora andei saltitando pelas pedras, fugindo das águas que desciam com fúria o Pico da Bandeira.

E nada do tempo melhorar… Só saí da “trilha-rio” nas imediações do acampamento seguinte, Terreirão. Uma ampla área bem abrigada dos ventos e com uma casa de pedra decrépita como a do Abrigo 2 do Pico Paraná, mas com telhado. E goteiras também. Havia um pessoal da região lá acampados (dentro da casa) com comida e algo mais para quatro dias. Ofereceram um Chapati com Mel que estava realmente uma delícia!

Dispensei o convite para entrar na enfumaçada casa onde rolava uma fogueira (fogueira?), apesar da proibição deste tipo de atitude no Parque. Pelo menos era dentro da casa e não teria como fugir ao controle, sem contar que aquela umidade toda jamais permitiria qualquer chama de permanecer acesa.

Descendo rumo ao próximo acampamento, o Tronqueira, a trilha era mais aberta ainda, detonada mesmo. Vinha na minha cabeça a imagem do futuro da trilha do PP na região do Morro do Getúlio. Sim, este será seu destino se nada for feito. Mais duas horinhas e cheguei, agora sob sol tímido, ao Abrigo Tronqueira. Neste ponto os carros chegam, mas no meu caso restava descer quase 1.000 metros de desnível rumo a cidadezinha.

A mochila estava pesando muito (barraca molhada nas costas) e o cansaço foi batendo. Me arrastei em longos sete quilômetros morro abaixo até a portaria, onde fui informado da possibilidade de um taxi vir me buscar ali, por um preço razoável, poupando dos últimos quatro quilômetros de descida.

Boa! Mandei vir o carro e relaxei. Já na cidade uma cervejinha comemorativa, o ônibus chegando em alguns minutos rumo a Manhumirim e um pôr-do-sol belíssimo. Lindo visual desfrutam os moradores de Alto-Caparaó.

Logo que cheguei em Manhumirim, por volta das seis e meia da tarde, comprei a passagem de regresso a Belo Horizonte, no horário de dez e meia da noite. Nem é preciso dizer que apaguei durante a viagem de retorno não é mesmo?

Grande abraço e se você chegou até o fim deste enorme texto, meus parabéns, rsrs. Agora aproveite as fotos.





















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Vale uma leitura!

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