Ultramaratón de Los Andes - Relato

Poutz...tanta coisa para contar. Afinal a competição foi apenas parte de todo um processo: Treinamentos, a viagem (que foi sensacional e será relatada com detalhes em posts futuros), o nervosismo, as dúvidas, os altos e baixos... Tentar ser sintético e prático em relatos de provas nunca foi meu forte, mas tentarei não incomodar demais.

Soube da Ultramaratón de Los Andes no final do ano passado, logo após a realização da segunda edição. Ficou na cabeça e decidi encará-la neste ano.

Deixando os detalhes de lado, vou me ater à prova em si.

A largada da competição dos 50K (havia também corridas com 80, 21, 10 e 5K) era as cinco da manhã. Havia tratado no dia anterior com a atendente do Hostel onde eu estava hospedado o "carreto" do atleta às 4 da manhã. Na hora combinada, a simpática Célia e seu carro novíssimo (impressionante a quantidade de gente com carro novo em Santiago) me apanhou no centro da capital chilena e rodamos por vinte quilômetros até chegarmos no "final" da cidade, ao pés da Cordilheira dos Andes, mais precisamente no bairro de Lo Barnechea, onde rolava a largada/chegada da prova. Uma região de casas luxuosas, demonstrando a pujança de um país que cresce junto com seu povo, diferentemente daqui.





Uma boa estrutura estava montada. A galera dos 80K tinha largado às 2 da manhã, se enfiando nas pirambeiras andinas. A largada foi pontual e comecei a correr junto com o casal paulista Oswaldo e Cynthia Penhalber, que identifiquei devido ao pendão nacional anexado às suas mochilas. Minha dose (parca) de nacionalismo resumiu-se à uma bandana alusiva às cores do amado Brasil, mais por utilidade do que por exaltação. Afinal, ser brasileiro é "pop" no exterior, a galera trata bem (exceto alguns xenófobos europeus), e abre algumas portas. Viva Pelé e Romário...

Na prova... Largamos, corremos 278 metros e já metemos o pé na terra. Uma poeira fina, uns pastos ralos e as luzes de Santiago às nossas costas, sendo trocadas pelos fachos brilhantes das headlamps que apontavam para o céu, indicando subidas e mais subidas.






É tudo muito, mas muito difeferente das corridas no asfalto. A sensação dos quilômetros passando (pelo menos para mim) simplesmente desapareceu, e em momento algum eu me preocupei se estava no sexto ou no oitavo quilômetro. O que interessava era ir adiante, além, ver o que havia, mesmo no escuro, depois da curva. Alguns atletas ainda são apegados aos GPS e tudo mais, mas...ah, deixa pra lá. Eu tava lá pra respirar aquele ar a dois graus de temperatura. Eu fui lá pra fazer as pernas trabalharem, pra fazer meu peito sorver cada centímetro cúbico da atmosfera rarefeita que se avizinhava no passo seguinte. E fiz tudo isso. Enquanto conversava com outros atletas, eu vi o sol nascer por trás do Cerro Plomo que me assustou em fevereiro de 2009. Nós todos nos emocionamos com isso. Fizemos muitas fotos e muito tempo de vídeo. O sendero subia ziguezagueando aquelas montanhas imensas e nevadas, com um céu azul se revelando a cada segundo mais e mais limpo. Mais e mais gelado.

Com a chegada do primeiro posto de controle no quilômetro 13 a gente meio que cai na real: estamos competindo! Mas isso dura pouco. Devorei algumas castanhas, bem como as mais doces uvas secas que já comi. O staff era extremamente gentil. A vontade era ficar lá papeando... Mas, o "dever" chamava. Já estava com umas duas horas de prova e o próximo PC seria no km 23, já por volta dos 2.400 de altitude. Subimos e subimos. Descemos um pouco, claro, mas apenas para subir mais em seguida. Cruzamos uns curtos trechos com gelo (neve congelada), uma sensação para nós tupiniquins. E dá-lhe fotos e vídeos...




PC do quilômetro 23, com 3h55min de prova. Frutas, gatorade, água, castanhas (pra que gel, me diga?). Um trecho de poucas subidas até o PC seguinte, no Km 31, pouco antes da subida mais dura, que nos levaria ao ponto mais alto da prova, com 2.600 metros. O ar faltava um pouco, mas nada que incomodasse. Era só seguir aos passos curtos, jogando o peso no bastão de trekking, item que foi um absoluto sucesso. Hoje, o considero indispensável em provas do gênero, e havia muita gente compartilhando essa opinião por lá. Quem usou, se deu bem. Corredor brasileiro, em geral, tem essa mania tola de não querer usar mochila, nem bastao e, heresia máxima, caminhar em ladeiras. Caminhei muito, usei minha mochila e arfei pesado apoiado em meus bastões, sem vergonha ou pudor. Estava me divertindo muito, e se a corrida não fosse divertida, lá não estaria.





Oh, o ponto mais alto. Confesso que não olhei muito a vista. Já tava achando aquilo tudo muito "comum". Minha vista já estava absorvendo aquelas paisagens estonteantes havia mais de cinco horas... Agora é morro baixo!




A descida se revelou mais dura, mais íngreme. Cheio de precaução fui despencando de leve, nada comparado com meus treinos por aqui, onde eu me desembesto barranco abaixo. Lá eu estava respeitando o terreno, a distãncia maior e , principalmente, minhas pernas traumatizadas com as descidas da Maratona de Foz.

E descemos... a neve ficou para trás, o calor começou a apertar forte (ja passava do meio dia) e as pernas iam sentindo a pauleira das pirambas. Mas deu pra correr tudo, trotar nos trechos planos e, obviamente, conversar com a galera nos PC's.

E, de repente, começa a aparecer uma galera de MTB. Opa, aqui a trilha é pedalável! Está acabando... E eu arrependido de não ter me inscrito nos 80K. Afinal, tudo na vida é mais incrível e saboroso quando é difícil demais... Os 50K terminaram rápido demais, em apenas 8h35min. Esperava fazer em dez horas... Talvez se tivesso feito os 80K eu teria encontrado aquilo que achei que fosse encontrar: bolhas, unhas caídas, dores excruciantes, sorriso abobado...

Encontrei fortes, fortíssimas emoções nesta prova. Ter finalizado minha primeira ultramaratona (não adianta, não considero a Praias e Trilhas de 2009 minha primeira ultra, e sim uma dupla maratona) dessa forma, tão inteiro, tão em pé, tão "querendo mais", foi surpreendente. Achei que iria me arrebentar pra completar em dez horas. Terminei sobrando em 8h35min.

Bom para aprender, Mr George. Aprender que se você não deve subestimar os outros, não deve desvalorizar, principalmente, você mesmo!

Porque 2011 tá chegando...e aí quero ver...

Grande abraço e meu muito obrigado a quem tornou tudo isso possível. À Território que entrou com a parte mais dolorida, a grana (rs), à Proativa que forneceu equipamentos essencias para o sucesso e, claro, aos amigos de sempre. Aqueles que leem e comentam aqui, saibam: levei vocês comigo lá para cima (e trouxe de volta, claro). Fotos do arquivo pessoal e de www.facebook.com/tnfchile.

Buenas y suerte!

13 comentários:

  1. Ótimo relato.
    Deu até vontade de ir também.
    Parabéns.

    @rscbsb2

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  2. É seu George! A gente tem sorte de ter escolhido algo que dói, mas ao mesmo tempo que enche os olhos da gente com paisagens deslumbrantes....

    Eu vou nessa! Como deixei certas paradas para serem resolvidas em Maresias, ainda não decidi se volto lá ano que vem ou faço o seu caminho...

    Parabéns meu velho!!!

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  3. George,
    Pô, cara! Quando eu decido que quero fazer a ultra de Bertioga-Maresias de 2011, e treinar duro para isso, vem você com esse belo relato... mas não tem nada não! Bom saber que após os 75km terei outro de 80km...
    Também é bom saber com quem posso obter informações valiosas sobre a prova.
    Legal a forma divertida como você corre. Um dia chego lá.
    Abraços!

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  4. Joel, foi você que me indicou esse blog?

    Eu fico os relatos aqui e, pô, depois levanto as 5 da matina para ficar lendo a Go Outside de tão pilhado que fico!

    Comprei aquele número sobre equipamentos e acessórios que você comentou lá em Bertioga e fico me imaginando correndo nessas paradas...

    Culpa sua também, viu!!!! :-))))

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  5. Salve George !!!!
    Caramba, confesso que deu uma puta vontade de participar dessa diversão.
    Que tesão. Nada de pace, nada de nada. Só o prazer de estar no meio da natureza.
    Muito legal !

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  6. Bolhas nos pés – roçamentos – Escolha olimpica

    Existe o Creme NOK Akileine sport. Produto da linha oficial da seleção da França dos jogos olímpicos de Pekim

    O creme NOK é um creme protetor contra atritos para Preparação da pele submetida às fricções (pés, axilas, virilha, seios,...)

    ele e também usado por diabético na proteção contra atritos

    Ele limita o risco de acidentes cutâneos: queimaduras, bolhas (flictenas).Reforça a epiderme e a protege dos roçamentos ligados aos equipamentos do esportista e aos roçamentos pele contra pele.Torna o sistema articular mais flexível

    Estudos Laboratoriais

    Comparado á uma região não tratada, o produto permite um aumento mínimo da vermelhidão oriunda de roçamentos padronizados no lado do pé dez minutos após aplicação do produto: -9,34%. Este efeito não é mais observado 30 minutos após aplicação: +5,95%.

    Comparado á uma região não tratada, as medições efetuadas no nível do calcanhar mostram um aumento mínimo da vermelhidão oriunda de roçamentos padronizados dez minutos após aplicação do produto: -4,39% e 30 minutos após aplicação: -9,59%.
    consulte os sites ( são sites técnicos e não de venda):

    www.asepta.com ( da França )
    www.asepta.com.br ( no Brasil )

    a Época Cosméticos no Rio, Farmácia Iguatemi em São Paulo e outros têm esses produtos à venda inclusive pela internet pela dermexpress e pela dermatan
    espero ter contribuído de alguma forma

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  7. Meu amigo ... que sensacional !!! Que super aventura ...e a largada as 02h00 da madruga que show .... !!!

    Quero um dia poder fazer algo assim, mas por enquanto sigo por aqui na torcida por vc !!!!

    SUCESSO SEMPRE !!!

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  8. buenas volpao, sensacional a corrida,uma maratona em lugar plano já nao é facil,imagine ladeira a cima,muito bom relato.E ano que vem que venha os 80k para a diversao ser completa.abraççosss

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  9. Sensacionallll e lendo post como o seu que vejo o quanto eu preciso aprender,treinar e treinar,visual maravilhoso PARABÉNS e sabe que sou sua fã...felicidades por ai.

    Fabi =)

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  10. Gostei Volpão.

    Deu pra sentir bem o clima da prova pelo teu relato. Parabéns!

    Correr a 2C foi complicado? Eu já fiz alguns treinos nessa temperatura mas não em altitude. Fiquei curioso pra saber como é fazer uma prova nessas condições.

    Na minha lista de coisas a fazer tenho algumas maratonas mas estas corridas de montanha são realmente algo que quero me envolver mais. O duro é não ter subidas pra treinar por aqui! rs

    Qdo chegar a hora vou te pedir umas dicas!

    Minha bola de cristal está vendo o número 80 e 2011 juntos? rsrs

    Abs,
    Shigueo

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  11. Valeu, Volpão!!
    Fantástico seu comentário. Deve ter sido uma experiência maravilhosa e incrível. Eu mesma, que não sou de "ultras", fiquei até com vontade de fazer. Um dia... quem sabe!
    Bjs,
    Fernanda Paradizo

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  12. George,
    Quando crescer quero aprender a correr sem GPS...ou melhor, sem relógio.
    Sensacional o seu relato. Fiquei com vontade de fazer a prova...mas antes preciso voltar a correr.
    Um dúvida: qual a marca de bastão que vc indica? Eu e o meu marido vamos subir o Lascar e o Licancabur, no Chile, e estou com vontade de comprar/alugar bastões para a gente.
    Parabéns novamente,
    Beijos,

    Bons treinos e bom descanso,
    Giovanna

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  13. oi, Volpão, vim passear no seu blog.
    além de tudo e mais um tanto, você escreve bem, rapaz!

    abraços,
    Cris (corredores BH)

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