Só o CUme Interessa - Piada Escrota

Bah, nem é piada. Acho que isso se chama cacofonia, que é quando alguma coisa dita de um jeito dá a entender que é outra coisa. Entendeu? Ah, eu também não, hehe. Enfim, não é o que importa.

To escrevendo essa parada, porque li um post no blog que os colegas Bonga e Tonto montaram para divulgar sua expedição no Ama Dablam, uma das mais belas e cobiçadas montanhas do Himalaia. Este cume não é dos mais elevados nem dos mais tecnicamente exigente. Mas o Ama Dablam é lindo! Quem não gostaria de pisar em um cume assim? Lindo, majestoso, imenso... Confira abaixo:


Pois é... com seus quase sete mil metros trata-se de uma cobiçada montanha, objeto de desejo de muitos. Porém, o que rola desde princípio dos anos noventa são os turistas de montanha. Nada contra eles, pelo contrário. Servem para impulsionar uma atividade ecologicamente correta, movimentar economia, transferir renda e trazer qualidade de vida para quem pratica e/ou depende dela.

Porém, tudo em exagero tem um porém - to meio engraçadinho nos textos hoje...- O que rola é que estas montanha mais cobiçadas estão sendo verdadeiramente exploradas pelas empresas que levam esse tipo de gente para seus cumes. O que rolou no Ama Dablam esse ano foi o que o o Tonto classificou de "corrimão de plástico". Simplesmente equiparam toda a montanha com cordas fixas! Ou seja, se você quisere realmente escalar a montanha por sua rota normal, isso não seria possível, pois toda o caminho estava com cordas previamente fixadas pelos guias das expedições comerciais. Bastaria você clipar o seu ascensor e ir subindo, como em um corrimão. E aí fica a pergunta: Só o cume interessa? A maneira como se atinge esse cume não mais importa? E se eu busco a real experiência de subir uma montanha eu devo procurar outro lugar? Para quem vive a montanha de verdade e busca experiências verdadeiras isso é mais ou menos como colocar escadas rolantes. Qual o mérito de se tirar uma foto em um cume dessa forma e mostrar pros amigos dizendo: "Sabe o Ama Dablam, aquela montanha linda? Escalei!" Escalou bosta alguma!

Reproduzo abaixo um e-mail que o montanhista Davi Marski enviou na Hangon, a maior e mais importante lista de discussão de internet do montanhismo nacional a respeito do que realmente acontece na cabeça de gente como eu e como você que busca experiencias verdadeiras:

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Colegas,

Como muitos sabem, o Maurício 'Tonto' Clauzet está no Himalaia tentando
escalar o Ama Dablan em estilo alpino (sem uso de cordas fixas fixadas
por outros), junto do Mute e o Bonga. Eles não conseguiram fazer cume,
mas fizeram várias tentativas, inclusive pela rota noroeste. Sem uso de
sherpas, sem uso de cordas fixas.

O que me leva e escrever aqui pra lista do HangOn é que acabei de ler os
dois últimos posts no blog deles : http://amadablam2010.blogspot.com/
e é uma coisa que cada vez mais tem tomado vulto no mundo da escalada:
até que ponto vale a pena chegar ao cume ? é o cume o objetivo máximo do
escalador ?

Certamente é uma coisa para se refletir (o jeito que se sobe ou se chega
ao cume de uma montanha).

Lendo os posts deles, enviado através de SMS, é realmente decepcionante
saber do lixo, tanto no campo base quanto nos campos de altitude, do
descaso e exploração no uso de sherpas, isso sem contar com as pessoas
que contratam uma expedição comercial, e vão umareando , como o próprio
Tonto escreveu, em uma via ferrata de plástico (as cordas fixas) desde o
'acampamento base' até o cume. Só para depois poder sair alardeando que
fez cume. Essa questão da "muvuca" ou "farofa" nos acampamentos base não
é uma coisa recente, pelo contrário, apenas vem aumentando ano após ano.
A última vez que estive no Aconcágua, por exemplo, foi em 1999 - e a
situação em Plaza de Mulas já me parecia insuportável (e olha que nem
tinha acesso a internet naquela época!). A questão do lixo é realmente
assustadora, sem contar nas 'n' pessoas cagando em tudo quanto é lugar.
Nem precisa ser uma escalada de alta montanha. Recentemente rolou aqui
na lista do HangOn vários posts sobre as escadas no Pico Paraná. É a
mesma situação das cordas fixas... até que ponto vale chegar ao cume
usando destes artifícios ? Cogitei seriamente em estar nessa trip com
eles, e por vários motivos não deu certo. Acho que se estivesse na mesma
situação da descrita pelo Tonto não teria assumido decisões muito
distintas das que eles tomaram. Não tenho a menor idéia de quantos
"independentes" haviam no Ama Dablan, mas desconfio que apenas o russo
que veio do Lhotse fez cume em estilo alpino.

Vale dizer ainda que o Maximo Kausch fez cume pela 2a. vez no Ama
Dablan, a primeira foi em 2004, em estilo alpino, e agora, em 2010, a
trabalho, guiando mais de 10 clientes pela empresa do Dan Mazur. A
Emilia Takahashi e o Roman Romancini também já estiverem no cume do Ama
Dablan.

abraços e boas escaladas,

davi marski

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Compartilho aqui, com autorização do Davi (visite o site dele e, se curte mesmo montanhismo compre o livro, que já li e é completíssimo), um pensamento comum à maior parte da comunidade montanhista. O troço tá foda... Há pouco sossego na montanha...

Estive na região do Cordón del Plata em 2009. Carreguei eu mesmo minhas coisas. Barraca, tralhas de acampamento, roupas, comida para dez dias... Lembro bem que no dia anterior ao meu ataque para o cume outro brasileiro fez sua tentativa, sendo praticamente rebocado montanha acima pelo seu guia particular (o cara contratou um guia só pra ele!). Ele fez cume, chegou morto de cansaço novamente ao seu acampamento e teve seus méritos. Conseguiu seu troféu. Durante momento algum, em todos esses dias na montanha ele carregou algo mais que sua roupa e uma mochilinha com lanches... E o Volpão? Acredito nos meios e não no fim. Carreguei tudo que era meu, subi ao cume, faltou 50 metros, naõ consegui e desci. Sem questionamentos. Cada um sabe o que faz e dorme com sua consciência.

Com isso não é intenção minha dizer que sou melhor ou diferente que os "clientes" de tais expedições. Da mesma forma, jamais disse que por correr livre e solto, sem o GPS Garmim para corrida, sem os tênis da moda, sem assessoria, sem planilha eu sou melhor ou quero fazer graça. Cada um tem seu estilo.

Deixo apenas esse post e seus direcionamentos para links para que cada um reflita sobre se realmente só o cume interessa...

A verdade é que o Volpão está cansado dos posers... Dos corredores sub-alguma coisa querendo impor suas verdades, de especialistas com diplomas que brincam de donos da verdade, de jornalistas sensacionalistas e de empresas onde o dinheiro é mais importante que o ser humano . Lembrando, claro, que empresas são geridas por humanos.

E sigo correndo e me divertindo, rumo à libertação.

3 comentários:

  1. Volpão, nesse mês de outubro tirei férias e tive a oportunidade de ler alguns livros, dentre eles, 'No ar rarefeito', onde Jon Krakauer já mostrava essa lamentável questão do lixo deixado pelos alpinistas. Acho que quem curte alpinismo tem que relaxar com os 'corremãos'. Será que não é uma forma de tentar diminuir as mortes de desavisados que integram algumas expedições? Deixa os caras dizerem que escalaram o CUme, porque o cume, mesmo, jamais conseguiriam. E vamos correndo, digo, escalando... Abraços, Joel

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  2. Belo post, bela análise.
    Começando a fazer triatlo já dei de cara com essa galera. São todos iguais na essência. Ontem, conversava com uma menina, que faz triatlo, e comentou que está com uns problemas de lesão nos pés. Perguntei sobre o tenis que ele usava e sobre a passada dela. Cara, a mulher tem 7 pares de tênis. 7 !!! 7 !!!!
    Eu tinha um pré-conceito em relação a ela, pois já a tinha visto jogando lixo na rua enquanto pedalava.
    Deveria ter seguido os meus instintos e nem ter dado trela.
    7 tênis ???
    Essa galera é podre.

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  3. this post is very usefull thx!

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