Pular para o conteúdo principal

O treino dos sonhos

Muitos corredores têm a sua prova dos sonhos. Aquela competição que desperta um desejo incontido de alinhar e, curiosamente, querer corrê-la o mais rapidamente possível. Não seria o caso de se pensar em saborear essa prova dos sonhos de forma mais amena, sem cobranças e sem pressa? Claro que não! O nome já diz: somos CORREDORES! Correr virou sinônimo de ter pressa, urgência.

Ops... Parei por aqui pois não é para falar disso que vim gastar o teclado. Deixa para uma próxima, de repente após um trago de boa cana que teria como veículo transportador aos lábios uma lembrança querida de uma bela ilha do litoral paulista.

Tratarei aqui do melhor treino, do treino dos sonhos. Todos querem correr as provas dos sonhos. Seria contentar-se com pouco querer elevar a um status maior um simples treino? De modo algum, leitor, se você estivesse comigo na manhã de 10 de fevereiro de 2009.

Uma simples quarta feira perdida no calendário. Dia útil, chuviscando... Pior ainda, madrugada alta, pois nesta época do ano aqui na terra dos pinheiras o sol (quando se é possível observar o disco dourado) dá as caras após as sete da manhã. Para quem, como eu, ganha a vida baseado em horários comerciais a opção é mesmo madrugar.

Sem lamúrias, moço! Um punhado de amendoim salgado e uns goles de suco de uva para descer o tal amendoim foram o primeiro combustível do dia. Já ao despertar era possível quase apalpar o silêncio que envolve esse período pré-matinal que envolve a região de Campina Grande do Sul.

Tinha-me decidido por recorrer um trecho de aproximadamente 12 quilômetros, numa via com o curioso nome de Estrada do Japonês. Uma estradinha rural, que leva a algumas das milhares de chácaras do município. Perfil altimétrico agressivo, pero no mucho. Mas o que me encantava era a escuridão. Apesar de já tê-la percorrido com gelo nas poças ou com sol saariano, essa estrada na escuridão me revelaria o novo.

E como é bom encarar o novo não é mesmo? Lanterna de cabeça a postos, peito estufado e passo firme, inicio um treino fantástico. Assim que deixo o último trecho de asfalto, ainda no primeiro quilômetro os sentidos começam a se aguçar. A visibilidade limitada pela lanterna, o piso escorregadio de alguns trechos (chovera bastante horas antes) e principalmente os sons...

Ah, foi o treino dos sonhos e dos sons. Posso ouvi-los até mesmo agora. O som dos meus pés, ora tocando um cascalho solto, hora amassando a lama, ora se equilibrando em pedras enormes. Cuidado! O que seriam aqueles dois olhos brilhantes adiante? Ah, um cão. O que pensaria um cão às seis da madrugada vendo um bípede passando lépido em seu território? Melhor não advinhar, hora de caminhar um pouco e dizer um bom dia desajeitado para o figura.

Passado o susto, passos rápido outra vez. Mas era tarde. Outros cães da vizinhança já tinham ouvido o alarme do companheiro de espécie e começaram uma gritaria que parecia querer acordar o mundo.

Mas assim como começou, rápido, terminou. E voltei à companhia apenas do som dos meus passos. Mas por pouco tempo. Entrou um ventinho miúdo da Serra do Mar e pude ouvi-lo claramente quando movimentava as folhas de uns eucaliptos próximos.

Opa! E como esquecer de dois desvairados que cruzei e que corriam assim como eu, naquela escuridão? Em vez do aceno tradicional eu soltei um palavrão: "Porra, achei que só eu fosse maluco assim pra correr aqui nesse horário!" As nossas gargalhadas foram realmente um ponto alto do dia e tenho certeza que os anônimos corredores daquela madrugada não se esquecerão desse encontro inusitado.

E assim os quilometros se passaram, cheguei à sede da municipalidade, estranhando o fato de sua humilde sede da Câmara de Vereadores ainda ostentar decoração de Natal...

De volta ao asfalto, os sons foram substituídos por outros mais comuns ao dia-a-dia de quem vive nos grandes centros. Roncos de automóveis, falatórios nos pontos de ônibus e telefones celulares soando.

Mas não mais importava. Foi tudo perfeito demais! Pois o primeiro som do dia, aquele que ouvi no meu despertador dizia isso e isso me basta:



"And love is not the easy thingE o amor não é uma coisa fácil
Is the only baggage that you can bring É a única bagagem que você pode trazer
Love is not the easy thing Amor não é uma coisa fácil
The only baggage you can bring A única bagagem que você pode trazer
Is all that you can't leave behind" É tudo o que você não pode deixar para trás


And if the darkness is to keep us apartE se a escuridão for nos separar
And if the daylight feels like it's a long way off E se a luz do dia parece estar muito longe
And if your glass heart should crack E se seu coração frágil se partir
And for a second you turn back E por um segundo você quiser voltar atrás
Oh no, be strong Oh, não, seja forte




Walk on! Walk on! Continue em frente, continue em frente
What you got, they can't steal it O que você conquistou, eles não podem te roubar
No, they can't even feel it Não, eles não podem nem sentir isso
Walk on! Walk on! Continue em frente, continue em frente
Stay safe tonight Mantenha-se segura esta noite


Um beijo!

Comentários

  1. muito bom.
    hj, o meu treino não foi dos sonhos.
    mas, o melhor de 6 meses.
    algumas mudanças estão dando resultado e cheguei em casa inteiro.
    muito bom !!!!
    há qto tempo iso não acontecia e estava me desanimando. parece que eu tinha perdido o tesão em correr.
    mas, estou vendo que foi uma fase.
    fase boa, fase de ajustes e correções.
    abs.

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

Specialized Hardrock Sport Anos 90

Oi! Com esta bike consegui, de certa forma, realizar um sonho de adolescência: pedalar uma mountain bike com quadro de cromo-molibdênio e geometria clássica dos anos 90. A bem da verdade, lá por 1996 eu pedalei por alguns meses com uma Scott Yecora e mais recentemente, em 2014 uma Trek Antelope 800. Mas ambas tinham apenas os três tubos principais em cromoly. Esta Specialized Hardrock Sport eu consegui na Jamur Bikes, sendo trazida recentemente dos Estados Unidos pelo próprio Paulo Jamur (proprietário da loja e meu boss), que se encantou pela bike e seu estado de conservação. Quando ele colocou a bike à venda na loja, não me fiz de rogado. Era a chance de ter uma bike em cromoly e praticamente original dos anos 90. Na verdade comprei esta bike como alternativa para transporte urbano, uma vez que a Format 5222 (da qual pretendo fazer uma apresentação em post futuro) que "gravelizei" eu pretendia deixar somente para atividades esportivas. Mas gostei

Só o CUme Interessa - Piada Escrota

Bah, nem é piada. Acho que isso se chama cacofonia, que é quando alguma coisa dita de um jeito dá a entender que é outra coisa. Entendeu? Ah, eu também não, hehe. Enfim, não é o que importa. To escrevendo essa parada, porque li um post no blog que os colegas Bonga e Tonto montaram para divulgar sua expedição no Ama Dablam, uma das mais belas e cobiçadas montanhas do Himalaia. Este cume não é dos mais elevados nem dos mais tecnicamente exigente. Mas o Ama Dablam é lindo! Quem não gostaria de pisar em um cume assim? Lindo, majestoso, imenso... Confira abaixo: Pois é... com seus quase sete mil metros trata-se de uma cobiçada montanha, objeto de desejo de muitos. Porém, o que rola desde princípio dos anos noventa são os turistas de montanha. Nada contra eles, pelo contrário. Servem para impulsionar uma atividade ecologicamente correta, movimentar economia, transferir renda e trazer qualidade de vida para quem pratica e/ou depende dela. Porém, tudo em exagero tem um porém - to meio engraç

Guia de Trilhas - Morro do Anhangava (parte I)

INTRODUÇÃO Saudações. É com prazer que publico aqui um mini-guia para corrida de montanha no morro do Anhangava, originalmente publicado no antigo site  TrailRunning BRASIL . MORRO DO ANHANGAVA Localização O Morro do Anhangava e seus 1.420 metros de altitude, está localizado nas proximidades da localidade de Borda do Campo, distrito do município de Quatro Barras, região metropolitana de Curitiba, a aproximadamente 35 quilômetros da capital paranaense. O local é considerado um campo-escola de montanhismo, pois conta com trilhas para caminhada e corrida, bem como vias de escalada em rocha de todas as dificuldades. Chegando lá de carro: Deixe Curitiba pela BR-116 sentido São Paulo, seguindo até o trevo de Quatro Barras, cuja sede municipal pode ser visualizada à direita. Saindo desta rodovia, você chega ao centro da cidade. Siga as placas que indicam Borda do Campo e Morro do Anhangava à direita, onde você acaba tomando a PR 506. Em poucos quilômetros, pl