Pular para o conteúdo principal

As lições da KTR Series 2014

Oi, bom dia!

Um tema que me apetece tratar: o que aprendemos com as experiências vividas. Estive no final do mês passado na cidade de Passa Quatro - MG, participando da KTR Series, primeira edição de um evento que trouxe muitas coisas positivas para o cenário das corridas de montanha. Lá estive não como atleta, mas como enviado da Revista TRAILRUNNING, para quem trabalho atualmente. Acompanhei também os amigos que iriam competir na prova, inclusive dois que estão entre os melhores da modalidade em nosso país mas ainda eram desconhecidos no eixo Rio/São Paulo: Leonardo Meira e Letícia Saltori. Ambos foram campeões em suas modalidades e distâncias.

O que mais ficou evidente é que, pela primeira vez, tomamos contato com uma modalidade nova no Brasil: o "Mountain Running". Até então, muitas provas ditas "de montanha" nada mais eram que corridas em trilhas (o clássico trail running) e muitas vezes nem isso: somente estradas de terra. Claro, já existiam provas de dificuldade física e técnica bastante intensas no Brasil, entre elas poderia citar a Maratona dos Perdidos, Half Mision Brasil e a Maratona da Chapada Diamantina. Mas um percurso 100% montanha, travadíssimo e com desnível altimétrico absurdo, tivemos pela primeira vez na KTR Series. Muito corredor saiu assustado - e alguns indignados - com o que encontraram. Trilhas fechadas, inclinações absurdas, cordas, risco de quedas e tudo aquilo que somente uma montanha de verdade pode oferecer. Algo no padrão Skyrunning, modalidade bastante popular na Europa. Este foi um aspecto que muito apreciei: montanha de verdade. Técnica, força e resistência, tudo combinado com um profundo respeito ao ambiente e aos colegas de atividade.

O segundo ponto que poderia citar foi com relação à organização como um todo. Particularmente, prefiro provas com menos mimimi. Ainda não entendi a motivação de levar um telão de sei lá quantos metros e grandes estruturas metálicas a um local de acesso tão remoto. Para se ter ideia, os atletas e acompanhantes seguiram em kombis escolares por uma estradinha de terra de 15 quilômetros morro acima, para chegar à base da prova. Não era recomendado subir com carro próprio pois, obviamente, o local não comportaria a presença de centenas de pessoas e seus automóveis. A meu ver pareceu uma tentativa de levar um pouco de "urbanidade" ao local. O que caiu bem foram as refeições, lanches e bebidas vendidos no local, já que se tratava de competição de longa duração e as pessoas tinham acesso a essa comodidade. Havia também banheiros químicos, outro ponto positivo, algo raro em provas de montanha. O local contou também com exposição e vendas de produtos das marcas parceiras da organização. Havia também um sistema de iluminação eficiente e bonito, já que boa parte dos atletas finalizou a prova após anoitecer. Bastante válido. Minha bronca ficou mesmo com o telão, hehe. Tanto lugar bonito por lá para entreter as pessoas...

Alguns problemas ocorreram por lá, nem tudo foram flores: atraso na largada, informações confusas, Exigência de itens obrigatórios mas que não foram conferidos antes e/ou depois da prova, atletas que se perderam devido à deficiência na sinalização, outros que erraram caminho por orientação de staffs mal preparados e distância total do percurso que deu margem  dúvidas (alguns atletas alegaram que o percurso tinha 23 quilômetros, outros 28 no máximo, no caso da modalidade 30K). Sei da enorme dificuldade em organizar uma prova com orçamento restrito e verba quase nula em patrocínios. O primeiro evento é sempre um "laboratório", onde identificam-se alguns erros e aprende-se a corrigi-los para edições futuras. Da mesma forma, a organização esteve sempre disponível a prestar esclarecimentos e mostrou-se acessível aos questionamentos que surgiram.

Muito se tem falado, principalmente nas redes sociais, sobre os valores de inscrições em provas de Trail Running. Por que são mais caras que as corridas de rua, por que virou negócio, por que isso, por que aquilo. Não vou entrar no mérito de questionar e debater novamente um assunto batido e recorrente desde o boom das corridas de rua, que surgiu no final da década passada. Acho que o mais importante é trabalhar em cima do que essa prova em especial representou para o cenário Trail nacional. O valor pago por cada atleta não foi baixo mas no meu entender foi bastante recompensado com o que foi oferecido, tanto em termos de kit como de estrutura.

Impossível deixar de mencionar o clima agradável de amizade entre atletas, organizadores e todos os presentes por lá. Todos com o objetivo principal de desfrutar a montanha. O clima de competitividade ficou por conta de meia dúzia de amadores preocupados mais com o relógio. A imensa maioria, inclusive os mais velozes, queria mesmo era curtir aquilo tudo.

Gosto de provas menos badaladas, com menos badulaques nos kits, onde o foco seja na segurança do atleta e no percurso desafiador e bonito. Mesmo assim, a KTR Series me pareceu uma prova que valeu muito a pena. Ando afastado das competições de trail running por dois motivos: a lesão do LCA e a falta de motivação em querer medir forças e perseguir linhas de chegada. A KTR Series é uma prova que facilmente me tiraria desta zona de conforto e me motivaria a me desafiar em uma competição. Que venha a próxima edição!

Meu muito obrigado à equipe da Revista TRAILRUNNING pela oportunidade e aos companheiros que convivi naqueles dias. Tentar citar um por um poderia incorrer em alguma injustiça.

Abraços!



As amizades que a montanha proporciona. Sem preço!


Comentários

  1. Boa tarde Volpão. Ótimo texto. Que Deus (e minha esposa) permitam que eu participe da próxima edição da KTR. Abçs, Haroldo Cesar Volpe Guedes

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Salve Haroldo! Muito obrigado. Mostra o texto e as fotos da prova pra esposa que acho que rola hein? Hehehe. Abração!

      Excluir
    2. hehe como no Everest, um passo de cada vez. Dei início ao processo de assinatura da revista TR, já tá bão por enquanto. abçs

      Excluir
  2. Disse tudo, muito bom Senhor Volpão!!!

    ResponderExcluir
  3. Disse tudo, prova lindíssima e de nível altíssimo! Valeu cada passada! Ano que vem nos veremos lá!

    ResponderExcluir
  4. Tem prova na 10a edição e cheia de erros, a 1a KTR tb teve alguns mas foi sem dúvida a melhor prova da minha vida e que venha a KTR 2!!!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. De acordo, Marcelo. Foi bacana, no fim das contas. Abraços.

      Excluir
  5. Parabéns pelos comentários. Acho que um item a ser revisto para os próximos anos é em relação não só a demarcação do 15Km, que ficou horrível à noite, e por termos tido que socorrer alguns colegas tivemos que enfrentar toda a descida à noite com chuva e neblina, mas também os stafs, não havia ninguém da organização na descida. Puxa ja era noite, as trilhas mal sinalizadas, chuva e tudo mais, se tivéssemos alguem para nos orientar ja seria uma grande ajuda. Faltou também um "vassourão" para ver se alguem tinha se perdido ou mesmo se machucado.. Bom fica a dica. No mais foi show de bola e as novas amizades feitas superam tudo isso...ABX

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Concordo Wilson, lembro-me bem que antes de ir embora uma atleta passou mal, e a ambulância já tinha ido embora. Teve de descer com um carro particular, poderia ter acontecido algo muito grave.

      Excluir

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

Specialized Hardrock Sport Anos 90

Oi! Com esta bike consegui, de certa forma, realizar um sonho de adolescência: pedalar uma mountain bike com quadro de cromo-molibdênio e geometria clássica dos anos 90. A bem da verdade, lá por 1996 eu pedalei por alguns meses com uma Scott Yecora e mais recentemente, em 2014 uma Trek Antelope 800. Mas ambas tinham apenas os três tubos principais em cromoly. Esta Specialized Hardrock Sport eu consegui na Jamur Bikes, sendo trazida recentemente dos Estados Unidos pelo próprio Paulo Jamur (proprietário da loja e meu boss), que se encantou pela bike e seu estado de conservação. Quando ele colocou a bike à venda na loja, não me fiz de rogado. Era a chance de ter uma bike em cromoly e praticamente original dos anos 90. Na verdade comprei esta bike como alternativa para transporte urbano, uma vez que a Format 5222 (da qual pretendo fazer uma apresentação em post futuro) que "gravelizei" eu pretendia deixar somente para atividades esportivas. Mas gostei

Só o CUme Interessa - Piada Escrota

Bah, nem é piada. Acho que isso se chama cacofonia, que é quando alguma coisa dita de um jeito dá a entender que é outra coisa. Entendeu? Ah, eu também não, hehe. Enfim, não é o que importa. To escrevendo essa parada, porque li um post no blog que os colegas Bonga e Tonto montaram para divulgar sua expedição no Ama Dablam, uma das mais belas e cobiçadas montanhas do Himalaia. Este cume não é dos mais elevados nem dos mais tecnicamente exigente. Mas o Ama Dablam é lindo! Quem não gostaria de pisar em um cume assim? Lindo, majestoso, imenso... Confira abaixo: Pois é... com seus quase sete mil metros trata-se de uma cobiçada montanha, objeto de desejo de muitos. Porém, o que rola desde princípio dos anos noventa são os turistas de montanha. Nada contra eles, pelo contrário. Servem para impulsionar uma atividade ecologicamente correta, movimentar economia, transferir renda e trazer qualidade de vida para quem pratica e/ou depende dela. Porém, tudo em exagero tem um porém - to meio engraç

Guia de Trilhas - Morro do Anhangava (parte I)

INTRODUÇÃO Saudações. É com prazer que publico aqui um mini-guia para corrida de montanha no morro do Anhangava, originalmente publicado no antigo site  TrailRunning BRASIL . MORRO DO ANHANGAVA Localização O Morro do Anhangava e seus 1.420 metros de altitude, está localizado nas proximidades da localidade de Borda do Campo, distrito do município de Quatro Barras, região metropolitana de Curitiba, a aproximadamente 35 quilômetros da capital paranaense. O local é considerado um campo-escola de montanhismo, pois conta com trilhas para caminhada e corrida, bem como vias de escalada em rocha de todas as dificuldades. Chegando lá de carro: Deixe Curitiba pela BR-116 sentido São Paulo, seguindo até o trevo de Quatro Barras, cuja sede municipal pode ser visualizada à direita. Saindo desta rodovia, você chega ao centro da cidade. Siga as placas que indicam Borda do Campo e Morro do Anhangava à direita, onde você acaba tomando a PR 506. Em poucos quilômetros, pl